Fruto de uma ascensão quase meteórica em termos profissionais, José Mourinho começou a ser entendido, de há uns anos a esta parte, como o melhor treinador do Mundo. De facto, assim o é, como comprova o troféu entregue pela FIFA, correspondente ao ano de 2011 e vigente até final do corrente.
Se por essa Europa fora o seu estatuto de “especial” foi ganhando contornos efectivos e se foi tornando numa tentação para o mercado mediático, também é verdade que o irracionalismo com que se venera o técnico, neste rectângulo à beira mar plantado, chega a pontos cómicos e perversos (refiro-me, fundamentalmente, aos órgãos de comunicação social, enquanto meios de informação que deveriam ser isentos). A pontos como o de frequentemente desvalorizar o trabalho do construtor do plantel que, possivelmente, pratica o melhor futebol de sempre e o estratega que desenha todo o esquema táctico de uma equipa que, lembre-se, em 2007/08 perdeu a hegemonia momentânea, em Espanha, e precisou de dispensar Ronaldinho Gaúcho, Eto’o ou Deco. Pior que isso, sempre se procura, nos media portugueses, hostilizar o trabalho desenvolvido por este último, quando bastava apenas elogiar-se dois estilos vencedores.
A resposta a muitas das vozes desconfiadas surgiu – tal como no caso dos comentários de André Villas-Boas -, da boca da mais improvável figura: Alex Ferguson. No final do encontro da Champions, em que a sua equipa foi batida pelo Barcelona de Pep Guardiola, o técnico inglês – que conta com 25 anos à frente do comando do clube com mais títulos conquistados em terras de sua majestade – defendeu que nunca defrontou tão forte equipa. “O Barcelona é a melhor equipa que já enfrentámos, não há outra maneira de o dizer. Nunca ninguém nos deu um ‘banho’ assim”, avaliou o experiente técnico.
Ora, a questão parte, precisamente, daí. Do aparecimento de um estilo de futebol – que poderá agradar a uns e desagradar a outros – que é entendido por muitos críticos como sendo um dos que mais próximos estão da perfeição.
Por outro lado, qual o estilo de futebol ou o legado, em termos tácticos, que Mourinho já provou poder deixar ao mundo do futebol (tal como aconteceu, noutros tempos, com alguns técnicos italianos que mostraram conseguir ser inventivos nessa área)? Acima de tudo, penso que o ponto forte de José Mourinho passa, essencialmente, pela forma como motiva os seus pupilos. Ou seja, é um excelente técnico em termos motivacionais e que percebe bem as diferentes fases de um jogo e de uma época e que consegue, com isso, resultados fenomenais, com ou sem uma grande equipa de futebol. O exemplo mais perfeito disso mesmo foi o Inter de 2010. Contudo, essa necessidade constante de motivar a sua mão-de-obra humana e de a defender não poderá voltar a justificar atitudes e posições como as que tomou este ano, sob pena de começar a cair no ridículo e de ver o estatuto de especial entrar em mutação, terminando num técnico arrogante e hostil. É que o ciclo vitorioso, a este nível, sem a tal estrela da sorte, pode conhecer um hiato prolongado. Condição que, no mundo em que vivemos, leva ao desaparecimento de qualquer super-estrela.
Dois vencedores
Salvas as devidas diferenças de percursos de cada um dos técnicos, chamava agora a atenção para o currículo de José Mourinho e Pep Guardiola. Se o técnico português tem 18 títulos conquistados em oito anos de carreira, o catalão leva 9 conquistados em três épocas. Há que frisar, contudo, que os primeiros seis de Mourinho foram conquistados com o FC Porto. No entanto, e se quisermos sobrevalorizar esse facto, podemos depois ver onde foram conquistados os restantes 12. Em Inglaterra foram, de novo, conquistados seis troféus internos, ao serviço do Chelsea – um clube que conhecia uma longa travessia do deserto, mas onde contou com todo o suporte financeiro para construir uma verdadeira equipa de estrelas. Depois foi para Itália, onde orientou o tricampeão Inter e o levou à conquista de uma Champions League, coisa que o anterior técnico não havia conseguido. Conseguiu, assim, provar que poderia voltar a vencer o troféu mais importante da Europa.
Pep Guardiola, por seu turno, “desenvolveu todo o seu trabalho no gigante Barcelona”, dirão alguns. No entanto, o tal Inter de Milão, em Itália, não seria menos gigante. Por outro lado, embora se frise sempre a importância da metodologia barcelonista na conquista de troféus, há que sublinhar que o técnico espanhol levou o seu clube ao tri-campeonato, depois de reestruturar a equipa e a disputar uma liga onde pontificava o galático Real Madrid. Um galático Real Madrid que, depois de perder os dois primeiros títulos para Pep Guardiola, juntou Mourinho a Ronaldo para tentar derrotar os rivais da Catalunha. Como se sabe, sem sucesso. Pelo menos, o insucesso interno é injustificável, a não ser dando o devido valor ao adversário. Algo que, obviamente, nunca foi feito.
Perfis
Esse reconhecimento nunca foi feito porque José Mourinho não é treinador para tal. Centro-me então, agora, na postura de cada técnico. Se repararmos, ao longo dos tempos, José Mourinho poucas vezes perdeu. Pelo menos, de forma generalizada ao longo de uma época. Quando tal aconteceu, virou as atenções para os chamados “factores externos”, não reconhecendo nem o valor do adversário, nem a incapacidade para dar a volta à situação, nem os erros que, como qualquer ser humano, comete. Esse traço estendeu-se, quase sempre, ao longo da presente época, às conferências de imprensa, onde privilegiou a crescente arrogância e falta de respeito ao sarcasmo que normalmente o caracterizava e que era bem acolhido pela crítica. A centralização do discurso no adversário custou-lhe caro e o mundo do futebol caiu-lhe em cima. No fundo, provou, se calhar, o reverso da medalha. Na época que vem só lhe resta um caminho: ganhar! Ou ganha, ou todo o acumulado de dois anos desgastantes poderá danificar a sua imagem de “especial”. Dizia alguém, recentemente, num espaço de debate público, que Mourinho seria “um bom condutor de homens, que precisa de cultivar o ódio do inimigo para poder catalisar animicamente a sua equipa, coisa que o Barça não lhe deu esta época. O resultado está à vista.
Do outro lado temos um perfil mais calmo. Pep Guardiola limta-se, quase sempre, a valorizar o papel da estrutura do clube e da qualidade dos seus jogadores para justificar os seus sucessos, que raramente toma como pessoais. Talvez seja neste aspecto, mas também num futebol de valorização da troca e posse de bola, que André Villas-Boas se inspira em Guardiola, tal como afirmara recentemente.
Justificações
Por cá, também é constante a ligação dos sucessos do Barcelona aos casos de arbitragens, de tal forma que, em qualquer conversa de café, o tema vem sempre à baila. Este ano centraram-se, essencialmente, nos vermelhos mostrados ao adversário. Como já afirmei no passado, não foi, por exemplo, necessária qualquer expulsão para este Barça golear o Real Madrid no final de 2010.
Mas, uma vez que essa discussão tanto apoquenta alguns, talvez seja melhor lembrar alguns outros casos que nos passam, facilmente, despercebidos nos relatos feitos por pessoas que, na maioria dos casos, tomaram como sua a guerra criada por Mourinho para atacar o Barcelona. Por exemplo, não vi ninguém sublinhar que o Barça teve um jogo complicado, em Camp Nou, frente ao Arsenal, nos quartos-de-final da Champions League, depois de, na primeira-mão, ter visto aquele que seria o 2-0 a seu favor ser mal anulado, num fora-de-jogo muito mal tirado. Não vi, também, neste jogo da final frente ao Man. United, ninguém insurgir-se contra o golo apontado por Ronney (1-1), quando o mesmo nasce de um fora de jogo do ‘extremo’ que lhe ‘mete’ a bola. Tudo questões paralelas mas que, não raramente, servem de justificação para muitos desaires. Pena é que a comunicação social portuguesa, num exercício patriótico, mas onde esquece um princípio bem mais importante – que é o de isenção e imparcialidade -, se limite a fazer a defesa de uma das partes com vista ao engrandecimento de uma estrela nacional.